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As águas do Guaíba eram mais próximas. O porto, com navios cargueiros e enxames de estivadores e marinheiros, imprimia um novo ritmo na pequena cidade que já se ensaiava cosmopolita. O velho Mercado fervilhava como o mais importante centro de abastecimento da metrópole naquele novo século, um imponente prédio, desproporcional ao tamanho de Porto Alegre, cercado por bondes e mulas. Ali, em 1907, de frente para ode se erguia outra majestosa construção, o Paço Municipal, surge aquele que se tornaria uma lenda na vida boêmia da cidade: o Bar e Restaurante Naval.

Seu primeiro timoneiro foi o italiano Ângelo Crivelaro. Naquela época o cardápio era uma forma de poesia, antecipando a ligação poética do bar com a literatura, jornalismo, música, política – que décadas mais tarde seriam características do bar e seus fiéis frequentadores.

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Mostrando que veio para ser um marco de resistência na cultura popular e no imaginário boêmio da cidade, o Naval sobreviveu a incêndios, enchentes e até ameaças de demolição do próprio Mercado, tornando-se uma instituição da cidade. Tradicional e riquíssimo em histórias, ficou famoso pelo seu chopp, muito apreciado especialmente pelos, então, recentes imigrantes alemães, especialistas no assunto. Compondo o cenário boêmio do centro da cidade, logo tornou-se ponto obrigatório de músicos, como Túlio Piva e Lupicínio Rodrigues, o mais importante compositor gaúcho, que lá almoçava praticamente todos os dias. Nas mesas do Naval, Lupe escreveu muitas das suas famosas canções. Elis Regina, Carlos Gardel, Thedy Corrêa no Naval também passaram. Sempre plural e democrático, acolheu os políticos, como Flores da Cunha, Leonel Brizola, João Goulart, Getúlio Vargas dentre outros líderes de estado do país. O jornalista Glênio Peres, que trouxe consigo  intelectuais, cineastas, poetas, historiadores, artistas, todos atraídos pela mística e pelo folclore que se criou em torno do Naval.

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UMA LENDA DA CIDADE

Como um verdadeiro bar, o Naval tem muitas histórias. E muitos admiradores. Depois de Crivelaro, passaram mais dois proprietários, ambos alemães, até que em 1953 veio o  português Antônio Lopez Branco. Em abril de 1961, dois novos timoneiros assumem a navegação, João Fernandes da Costa e seu irmão Manoel da Costa. João Fernandes manteve a tradição do bacalhau, do bolinho de bacalhau e o chopp, bem como a do mocotó, feijoada, peixes e frutos do mar, cardápio inspirado na cozinha luso brasileira. Manteve também os florões, os afrescos no teto, o que contribuiu para aumentar a aura e a magia do Naval. Uma história secular, acompanhando gerações e gerações. Forte reduto popular, democrático, com seus frequentadores anônimos e famosos, cenário de filmes, de encontros e desencontros, o Naval fez história ao longo do tempo como um espaço de convívio e cidadania, uma referência histórica, cultural e sentimental de Porto Alegre.